Por que usamos props?

Os props são integrados à pratica de alunos de Iyengar Yoga. No entanto, precisamos nos dedicar à compreensão do uso dos props. Este conceito foi claramente demonstrado pelo Guruji durante sua apresentação e mais tarde por Prashantji durante sua explicação. Este artigo foi composto pela base de aprendizado durante estas celebrações.

Um prop é um prop quando deixa de ser um prop

– Prashant S. Iyengar

Pergunte a qualquer praticante de Iyengar Yoga o quê o faz diferente de qualquer outro praticante de yoga. Eles prontamente irão listar os atributos que incluirão sua habilidade de sequenciar ásanas, permanência prolongada nas posturas, a ênfase no alinhamento, e claro, o uso de props. Props e Iyengar Yoga andam de mãos dadas. Mas quantos de nós realmente compreendemos o porquê e como usamos os props? Nós podemos ter experimentado muitas coisas, mas não tivemos condições de absorver estas experiências.

A maneira que usamos o prop, o que aprendemos e o que aplicamos deste aprendizado, depende do calibre e da hierarquia de nossa prática. Um paciente em recuperação estaria usando um prop como uma muleta enquanto o Guruji estaria usando o prop para alcançar ainda mais profundidade dentro dele.

Prop como uma muleta: hoje em dia, centenas de milhares de pacientes com problemas desde hérnia de disco, artrite, espondilose cervical, até disfunções cardíacas e hipertensão, vem se beneficiando com a prática de Iyengar Yoga. Um cinto, uma corda, a bandagem, um bloco são os suportes de vida deles.

A maioria destes pacientes nunca teriam obtido benefícios da prática tradicional de ásanas, assim como eles não conseguiriam realizar as posturas se não fosse com o uso dos props. Fale para um paciente com espondilose cervical para rolar o músculo trapézio para trás. Mesmo se eles souberem a anatomia da postura eles não terão acesso a isso. Ajuste a corda na parte de trás de seu pescoço para fazer uma tração e observe a expressão de alívio em sua face.

Peça a um paciente cardíaco para abrir o peito e veja a diferença quando você coloca o bloco atrás da coluna torácica como em Sharapanjarasana. A Medicina pode manter as pessoas vivas, mas os props de yoga dão a vida. No entanto, precisamos crescer além dos props e das muletas. Afinal, desliga-se o aparelho de respiração de um paciente em estado grave quando ele começa a melhorar!

Um prop para eliminar o medo: o medo pode devastar um indivíduo enquanto um prop pode auxiliar a vencer o medo. Abhinivésa é literalmente traduzido como medo mortal. Em nossa prática, é o medo de desequilibrar ou cair. É um dos impedimentos, um obstáculo na nossa prática. Quantos de nós teríamos treinado Sirsasana se nunca tivesse a parede atrás de nós? Quantos de nós que tem um corpo rígido e pesado teríamos aprendido Sarvangasana se não fosse usando a cadeira? O medo também impede o seu progresso.

Quando estamos realizando um ásana sempre tem um lugar onde encontramos o medo de cair. Por exemplo, ao fazer Virabhadrasana III, tendemos a achar que o pé e o tornozelo de base, que estão no chão, nos dão estabilidade. É uma “falsa noção”. Na realidade, é a outra parte que está nos dando estabilidade. Na realidade, é a parte posterior do calcanhar que nos mantém em equilíbrio. Quando usamos suporte nos nossos braços, o peso do calcanhar da perna de base é automaticamente transferido para a parte posterior gerando a estabilidade necessária. Desta forma, precisamos identificar a região onde o medo está travando você em cada postura. Observe quais mudanças são trazidas nesta pequena região quando usamos o prop adequadamente e quando realizamos a postura de forma independente.

Um prop proporciona estabilidade física e mental. Guruji frequentemente dizia:

“Ásana não é um movimento único, mas coordenação harmoniosa de várias ações”.

No entanto, quanto maior a dificuldade física de um ásana, mais estáveis fisicamente e mentalmente estaremos.

Estamos constantemente em movimento e, portanto, falhamos ao experimentar o ásana. O prop serve como um suporte para nos ajudar a permanecer mais tempo num ásana e, portanto, experimentar a transformação que o ásana proporciona. Pergunto-me quantos de nós seria capaz de permanecer de sete a dez minutos em Viparita Dandasana sem o uso de um prop. Nós podemos usar toda a nossa força de vontade mas, junto com ela, estaríamos também usando nossos lábios e nossa garganta!!

Todavia, é comum para os alunos de Iyengar Yoga realizar Viparita Dandasana por sete ou dez minutos com o auxilio de uma cadeira. De fato, muitos de nós ansiamos pelo frescor e calmaria da mente que Viparita Dandasana nos presenteia especialmente quando nossa cabeça está também apoiada num bolster.

É muito difícil de manter a consciência (principalmente da mente) num estado estável, mesmo se nós controlarmos a estabilidade e nos equilibramos fisicamente num ásana, a Chitta Bhumi (mente) iria vagar no estado de distração (Ksiptà) ou de alternância (viksiptà). Sob as instruções de um professor em aula, podemos nos manter com melhor foco (as instruções de um professor também são um prop!). Mas, é necessário apenas um segundo para a consciência vaguear especialmente quando estamos realizando o ásana de forma independente. O uso de props ajuda a citta bhumi (mente) a se manter em ekagra (concentrada) por mais tempo.

Um prop nos ensina sobre a humildade: pergunto-me se algum de nós percebe que sempre que usamos um prop para qualquer ásana, nós automaticamente começamos a entrar na introspecção. Então não temos espaço para orgulho. O sábio Patanjali falou claramente sobre o progresso da nossa prática de ásanas nos levar tanto em direção a apavarga (transformação espiritual) quanto a bhoga (experienciais físicas). Muitos dos novos yogis podem cair na graça do yoga por causa do orgulho de “realização.” O uso de props garante que não existe espaço para orgulho e o praticante mantém a humildade, o que deverá ser um dos princípios mais importantes para os praticantes.

Um prop para objetivar o cérebro: como já explicado no artigo de Yoga Rahasya (YR 10.4; pg.40), nós tendemos a usar muito mais nossa cabeça que nossos sentidos. Nós tendemos a trabalhar e direcionar com o cérebro ao invés de espalhar a inteligência por todo nosso corpo. O cérebro continua sendo um sujeito – direcionando o restante do corpo o tempo todo. Quando o cérebro tem a oportunidade de descansar? Quando o cérebro tem a chance de sentir tranquilidade e silêncio? Mesmo quando estamos realizando uma postura relaxante como Savasana – o cérebro comanda como relaxar o corpo. O único momento que o cérebro pode ser relaxado mesmo por um iniciante, é quando estamos usando props. Os pensamentos cessam naturalmente. Por exemplo, quando estamos fazendo Sirsasana nas cordas, o cérebro fica totalmente quieto. A aquietação acontece de forma ativa-passiva. Esta objetivação do cérebro também acontece quando relaxamos a cabeça sob o bolster em Adho Mukha Svanasana. Ficamos mais estáveis, calmos e podemos permanecer mais tempo do que ficaríamos sem os acessórios.

Esta é a razão pela qual fazemos ásanas antes dos pranayamas, nós fazemos algumas posturas com apoio para a cabeça. Isto preparará o cérebro para a ativar a passividade necessária para pranayama.

B.K.S. Iyengar nas kuruntas

O prop gera a sensação de leveza: No 43o sutra de Vibhuti Pada, o sábio Patanjali diz que um yogi talentoso mantém leveza no corpo e é até capaz de levitar. Este sutra claramente nos dá a pista do que devemos desejar para nossa prática de ásanas. Nós todos aproveitamos o ásana quando sentimos o corpo leve. Isto é exatamente o que o prop faz. Por exemplo, em Ardha Chandrasana quando feito com o uso do suporte para o tronco a mão erguida é usada para torcer o peito, e este se abre. Tornamos-nos hábeis a receber a energia cósmica quando o peito se abre. Desta forma, não sentimos a fadiga mas sim nos sentimos energizados pelo ásana.

O prop desenvolve sensibilidade ao praticante: Como iniciantes, começamos nossa prática de ásana através da densidade do corpo. Nós tendemos a usar apenas o corpo muscular, mas, conforme continuamos, precisamos nos ater à sensibilidade para perceber o ásana através da pele e dos sentidos e usar os props para desenvolver a sensibilidade. Por exemplo, quando estamos fazendo posturas em pé contra o tressler (cavalo), podemos aprender onde a força da ação está. Uma vez feita uma ação em particular, podemos estudar o alcance de seus efeitos. Sparsa, contato, é um importante componente da prática. A sensibilidade se desenvolve quando temos algum contato externo, e é desta forma que os props nos guiam. Nós devemos usar a sensibilidade como gatilho para nossa inteligência. Os props nos dão uma pequena luz, mas nós falhamos ao captá-la. Por exemplo, quando estamos em Ardha Chandrasana, a perna de base tende a se tornar mais curta. No momento que realizamos o mesmo ásana com o tressler (cavalo), ela automaticamente se torna longa.

Isto é para nós compreendermos o que o prop faz por nós.

Em Sarvangasana, as coxas frontais tendem a se colapsarem, a fatigarem, se nossa permanência for longa. Mas, se usarmos um cinto no topo das panturrilhas e girarmos as pernas para fora para tocar o cinto, iremos observar que os músculos da coxa frontal naturalmente retornam em direção ao osso, eliminando a fadiga dos músculos das coxas.

Então devemos estudar como o prop auxilia a performance do ásana. O uso deles aciona faíscas em nossa inteligência, nós devemos absorver estas faíscas e somar ao que conseguimos realizar com os props. Precisamos tentar incorporar estes ensinamentos enquanto estamos realizando os ásanas sem uso de auxílio, de forma independente.

Os props nos ajudam a ajustar os pranas em nosso sistema: O prana vayus é a força vital no nosso sistema. Nós estamos confortáveis em um ásana tanto quanto estes vayus estão equilibrados. Por exemplo, quando o Udana Sthana esta tenso ou Udana Vayu sobrecarregado, a garganta e o cérebro estarão em choque. Muitos iniciantes tendem a bloquear udana sthana quando estão realizando ásanas, principalmente quando há torções, e também em pranayama sentado. Esta prática pode ser prejudicial ao praticante. O uso de props automaticamente ajusta o prana vayus no nosso sistema. Por exemplo, vyana naturalmente cai quando fazemos Savasana no chão. Vyana percorre todo o sistema e pode ser observado nas laterais do peito. Mas, vyana se ergue naturalmente quando um bolster ou travesseiro é usado verticalmente como suporte para a coluna em Savasana.

B.K.S. Iyengar em savasana com apoio

Em Urdhva Mukha Svanasana, a samana (localizada no abdômen) e vyana tendem a cair. No entanto, quando fazemos esta postura com as palmas das mãos na cadeira, ou num banco de Viparita Dandasana, tanto samana quanto vyana são erguidos e nos sentimos mais leves e energizados.

Não devemos usar os props como uma poltrona ou um sofá onde nos acomodamos! Nós devemos ser muito claros nas nossas mentes, sobre o motivo de estarmos usando um prop, para um ásana em particular em um dia específico. Devemos usar o prop, para desafiar nossa inteligência e gerar vida nas nossas práticas, assim como Bheesma Pitamah usou a cama de pregos para desafiar sua inteligência e se manter vivo!

Traduzido do Yoga Rahasya 2004