“De Pai para Filha.”

Aluna, professora e médica. Geeta Iyengar conta a sua vida sob a luz de um grande mestre

de Colleen Morton

De Pai para FilhaDoce, reservada e inteligente.

Com essas palavras, Grazie Melloni, professora de Iyengar Yoga, define Geeta Iyengar, a filha do célebre Guruji. Geeta é a herdeira desse método – conta  Melloni . Ela é quem irá levar em frente a tradição e os ensinamentos aperfeiçoados pelo pai. Também porque é a única da família que pratica yoga.

O percurso de Geeta não foi  sem dificuldades.Aos  dez anos foi diagnosticada uma nefrite que a deixou bastante debilitada. Diante da impossibilidade de providenciar  o tratamento médico necessário, B.K.S. Iyengar colocou duas possibilidades à filha: começar a praticar yoga ou aguardar a morte.

 Assim , a cada dia, por  40 ou 45 minutos ,a filha escolhida se dedicava ao aprendizado dos asanas sob o olhar do Guruji até se tornar professora. Depois da morte da mãe é ela quem passou a cuidar da família e do Ramamani Memorial Yoga Institute em Pune, Índia.

Geeta- conclui  Melloni- contribuiu enormemente em enriquecer esse estilo graças à sua extrema sensibilidade, generosidade e atenção que sempre teve, sobretudo no ensino de yoga para mulheres.

O que significou para você ser filha de B.K.S. Iyengar e professora das técnicas criadas pelo seu pai?

Alguém há um tempo atrás me perguntou como eu me sentia  estando sempre à sombra do meu pai e imediatamente respondi:  “ Não estou à sua sombra, mas à sua  luz.” Quando ensino as suas técnicas, ele deixa de ser o meu pai e vira o meu guru.

Vou seguindo o meu mestre como qualquer outro aluno segue o seu. A genialidade do Guruji nesse caminho colocou em prova exatidão e a realidade concreta desse estilo.

A sua prática e experiência viraram  não só fio condutor, mas um farol de luz para todos nós. Durante os meus estudos tive a oportunidade de constatar o valor e os resultados do método transmitido. E nos ensinamentos tive a oportunidade de observar os resultados para os alunos. Quando eu fazia as minha práticas, o Guruji nunca mostrou o seu afeto por mim, como filha. O yoga requer disciplina. E meu pai é amoroso e compassível, sem nunca comprometer o rigor da prática. Ensinou a cada praticante a necessidade e a importância de controlar a si mesmo para obter benefícios duráveis.

Qual é, para  você, o mérito do Guruji? O que levou o método Iyengar a ser um dos estilos de yoga mais seguidos, também no Ocidente?

Através da prática, do seu envolvimento total no yoga e de uma intensa interiorização, o Guruji chegou a um conhecimento do corpo e da mente em profundidade.

O seu jeito de executar os asanas, de ensinar e de curar os pacientes é baseado em sua experiência pessoal.  B.K.S. Iyengar utilizou o seu corpo e a mente como laboratório. Por isso o seu método se tornou  universal.

Você é médica ayurvérdica. Quanto a compreensão dos princípios de tal tradição é importante para os estudantes de yoga?

Cada conhecimento de qualquer ciência médica sustenta a prática, seja essa o Ayurveda, a medicina moderna ou a homeopatia. Além do corpo físico o Ayurveda reconhece o aspecto moral, intelectual, psicológico e mental do ser humano.

Portanto,  unindo anatomia , psicologia e  neurologia, uma pessoa pode compreender  a sua constitução: os três gunas (sattva, rajas e tamas) e os três perfis ( vata , pitta e kapha), e dessa forma, pode ter uma clara imagem do próprio corpo e da própria mente. Mas esse é apenas  um conhecimento objetivo de si mesmo. O Yoga ajuda a  trasformar esses conhecimentos em uma experiência subjetiva. Comecei a me dedicar à medicina ayurveda só depois  de ter alcançado um bom grau de preparação no campo yógico.

E seria o que cada praticante teria que fazer: o estudo dos asanas é o primeiro passo a cumprir e matéria a se dedicar. A medicina ayurveda, sucessivamente, pode virar uma ótima ferramenta no conhecimento de nós mesmos.

Você encoraja sempre os estudantes a compreender as posições através da experiência com o corpo. Que coisa teria que fazer um aluno quando a sua percepção não está de acordo com os ensinamentos do mestre?

O corpo é uma ferramenta que cada praticante teria que utilizar para ter um conhecimento completo dos asanas. Na execução de uma postura é necessário perceber o físico na sua totalidade, purificando a própria consciência e inteligência, por isso, o corpo e a mente colaboram para despertar a consciência interna. Isso é o yoga no seu verdadeiro significado. Agora, quando peço aos alunos para observar os asanas  e  sentir as articulações, eu quero que aprendam a alcançar uma compreensão através da experiência. A postura é a arte de sentir nós mesmos. Em uma aula, o aluno tem que aprender a seguir as indicações do professor. Mas quando a sua cognição interior não está de acordo com as indicações feitas, tem que se analisar e trabalhar mais: colocar mais energia na compreensão da mensagem passada pelo professor.

Essa é a ação que vou pedir a cada praticante para cumprir: aprender a se olhar por dentro,  sensibilizando a si mesmo. O yoga não é  uma performance exterior.

É um método de sabedoria profunda. Mostrar a mecânica de uma asana é fácil, mas para expor o processo mental é necessária uma abordagem mais intensa.

“O real significado do yoga é o despertar da consciência interna.” Como define a compaixão de um professor? E como esse teria que equilibrar  certa dose de compaixão com a disciplina?

Essas qualidades não são separadas, não viajam em duas direções diferentes.

São duas faces da mesma moeda. A disciplina sem compaixão poderia ter resultados destrutivos. Um professor precisa do equilíbrio certo entre as duas características.

Na aula o professor tem que ser rigoroso e preciso com o aluno. Mas esta eficiência não tem que se transformar em uma espécie de rígida regra. O que é necessário, antes de tudo, é considerar o bem estar total do praticante. É mais importante, portanto, indicar ao aluno o caminho certo que tem que percorrer com perseverança. A compaixão de um professor  torna mais doce o rigor do método e ajuda o estudante a seguir e a aceitar a disciplina mais facilmente.

  • Fonte: Artigo escrito por Colleen Morton. Yoga Journal Italia. 05/2009
  • https://www.iyengaryoga.it/rassegna_stampa/leggi.php?id_news=203&tipo=rassegna_stampa