Como ser um estudante de Yoga na Índia

Muitos estudantes de Iyengar Yoga têm escrito perguntando sobre assuntos práticos quando alguém vem ao RIMYI em Pune: como encontrar um apartamento, como se locomover, como conseguir dinheiro, etc. No entanto, eu gostaria de abordar o trabalho interno de ser um estudante no RIMYI, especialmente neste período em que a Índia como uma potência global crescente atrai viajantes de todo o mundo. No final da aula na noite passada, Raya UD fez um pedido veemente para os estudantes internacionais: “POR FAVOR NÃO VENHAM AQUI PARA A VALIDAÇÃO DO QUE VOCÊS JÁ SABEM”. Em outras palavras, não venham para ter o seu ego afagado, não venham para confirmar as suas crenças e práticas, não venham para validar o que o seu professor sênior lhe ensinou, não venham como professor de jeito nenhum. Venham como estudantes, vazios, venham humildes. Estejam prontos para serem vulneráveis, estejam prontos para serem corrigidos e mesmo repreendidos, talvez duramente. Em vez de se afirmarem, estejam prontos para serem interrompidos, abalados e confundidos. Dessa confusão pode surgir um novo aprendizado radical. Por favor, não venham para a Índia para ajudar. Venham para serem ajudados. Venham para serem transformados, e não para transformar a Índia de acordo com seus padrões. Como os ativistas aborígenes australianos dizem: “Se você veio para me ajudar, você está perdendo seu tempo. Mas se você veio porque a sua libertação está ligada à minha, vamos trabalhar juntos”. É claro que as aulas estão lotadas. É claro que são barulhentas. É claro que existe a pobreza, a poluição, o pigarro e o cuspe. É claro que há mosquitos e baratas. Nós não podemos mudar ou controlar estas circunstâncias. À medida que praticamos não-julgamento e aceitação, temos mais energia e espaço interno para mais aprendizado, mais transformação. Percebemos que não nos importamos com a sujeira nas rachaduras de nossos pés – lavou, saiu. A primeira vez que vim a Pune presenciei um ato simples que teve um impacto profundo em mim. Eu estava com uma mulher que dividia um apartamento com a filha e o neto. Quando nos sentamos em uma manhã no café da manhã, alguns muitos mosquitos pairavam em torno da cabeça do neto. Depois de alguma pesquisa e discussão eu tinha decidido não tomar os comprimidos contra a malária recomendados apesar de estarmos na temporada das monções. Então, quando notei os mosquitos na casa sem telas, senti uma pontada de ansiedade. Usha, a avó, tão casual como sempre, balançou com a mão ao redor da cabeça de seu neto Akshay. Nos EUA, mesmo sem a ameaça da malária, teríamos golpeado os mosquitos violentamente, mesmo que isso significasse atingir a criança. Então, estaríamos muito orgulhosos de nós mesmos por dizimá-los. Aqui, os mosquitos não são uma coisa tão séria. Eu aprendi a praticar essa equanimidade na aula de Pranayamas da noite, quando ao entardecer, os mosquitos flutuam dentro das casas. Estava deitada em savasana para fazer pranayamas, quando senti uma picada, mas em vez de reagir e coçar me segurei e fiquei quieta. O que eu aprendi é que a mordida iria inchar, mas a coceira pararia em cerca de 20 minutos. Se eu conseguisse segurar o desejo de coçar, pela manhã, a mordida seria um ponto minúsculo, insignificante que nem sequer coçaria. “Quando você chega aqui, você não é NINGUÉM”, Geetaji duramente nos lembra, cansada das expectativas dos estudantes internacionais que são acostumados com tratamento de tapete vermelho. Para algumas pessoas isso é um período de férias, e o yoga faz parte de uma série de atividades que podem incluir viagens para um resort em Goa, compras a cada fim de semana, e viagens a spas ayurvédicos ou templos exóticos, e assim por diante. Outros podem querer replicar sua vida em seu país de origem e se sentirem frustrados que não podem encontrar os ingredientes certos para seus pratos favoritos, ou que as coisas não são tão “boas” aqui. Outros podem vir aqui para serem úteis e ajudar, e querem ser apreciados por seu serviço e sacrifício. As práticas da manhã no salão podem ser intensas. Tapete a tapete, nós competimos por espaço, props, e pelas paredes. Praticantes se contorcem nas mais avançadas posturas que você só viu em livros, bem como aqueles que passam toda a manhã em posturas restauradores supinadas e suportadas. Os professores sêniores de todo o mundo competem pela atenção de Guruji, e os professores locais estão em alerta para antecipar e atender seus pedidos. Em tal atmosfera pode ser difícil se concentrar e impossível não comparar. Temos que praticar estando plenamente no momento presente, num espaço de 60 cm x 1,70 m do nosso próprio tapete, ouvir o próprio corpo e com inteligência, discernir o que deve ser praticado naquele dia. Só aqui é que vamos nos estabelecer em anandamaya kosha, a bem-aventurança da prática. O Mestre budista Pema Chodron aponta, “O nosso ego é como uma sala com uma porta fechada. Nosso trabalho de toda a vida é abrir a porta”. Estudar no RIMYI será mais gratificante se deixarmos a porta aberta: se chegarmos com modéstia, humildade, abertura e confiança, com uma vontade de ouvir mais do que de ser ouvido, uma vontade de ter o nosso ego ferido, o que poderia incluir ter nossos sentimentos feridos, e uma vontade de se sentir pequeno e vazio. Aprendemos que NOSSA maneira não é sempre a melhor, que os produtos farmacêuticos ocidentais podem prejudicar mais do que ajudar, que o que acreditávamos sobre um asana pode ser delirante, e que as baratas realmente não podem nos machucar.

 “Aprender é tão arte como ensinar”, BKS Iyengar observa. Chegamos ao RIMYI para largar a armadura de nossos egos e praticar a arte de aprender. Traduzido de: http://stillinsirsasana.blogspot.com.br/2013/01/how-to-be-yoga-student-in-india.html