Somos Todos Karma-Yogis

somos-todos karma-yogis Geeta Iyengar oferece sua sabedoria do yoga clássico por Geeta Iyengar Charles Green Em abril de 2008, Geeta Iyengar foi a professora convidada de honra no intensivo bianual da revista Ascent, no Yasodhara Ashram. O workshop foi uma oportunidade rara para os yogues norte-americanos estudarem com uma lenda viva, e a Ascent ficou grata por estar presente. Foi um momento especial para duas linhagens – Swami Radha e BKS Iyengar – estarem juntas. Geeta Iyengar: Pediram-me para falar sobre karma-yoga. Yoga é uma coisa só. Para nossa própria conveniência nós o dividimos, dando-lhe nomes. Depois da divisão, pensamos que o yoga que tem sido explicada por Patañjali é diferente do yoga que o Senhor Krishna explicou a Arjuna. Então, acho que o que foi dito no Haṭha Yoga Pradīpikā é algo diferente de novo a partir do Patañjali Yoga e do que foi falado pelo Senhor Krishna no Bhagavad-gītā. Em uma discussão que aconteceu entre Swami Sivananda Radha e eu, nós concordamos com esse ponto: Yoga é uma coisa só. Então por que as pessoas brigam sobre minha religião, a sua religião? Por que as pessoas diferenciam entre Haṭha-Yoga, Rāja-Yoga e Karma-Yoga? Eles não são diferentes. Se nós estudarmos todos esses textos de yoga e védicos, chegamos à conclusão de que a yoga é uma coisa só. Como é isso? Nós, como seres humanos, embora sejamos de diferentes áreas geograficamente, todos temos inteligência, somos pessoas emocionais, a anatomia do nosso corpo é a mesma. Podemos ter diferentes gostos pelos alimentos, mas comida em si é essencial para todos. A água é essencial para todos. Assim como seres humanos, não diferimos como tal. Como seres humanos, nós somos um, então nossos problemas são também os mesmos. Quase todos nós temos o mesmo tipo de problemas. Às vezes a gente está feliz, às vezes estamos tristes. Outras vezes você tem dores no corpo. Nenhuma pessoa é deixada sem doença: temos febre, resfriado, tosse, tudo é comum. Há alguém neste mundo que disse que nós não sofremos? Não. Ninguém diz isso. Com todo o trabalho que realizamos, os problemas estão lá, os obstáculos estão lá. Se dissermos, vamos esquecer todos os problemas e vamos viver, eles ainda estarão lá. Temos de saber o que cria esses tipos de problemas. Até certo ponto, isso parece ser negativo. Mas quando penetramos profundamente vamos entender a profundidade dentro desses problemas. Não é uma visão pessimista, é a verdadeira visão. Quando um ser humano nasce, nós nascemos por causa do nosso karma. Essa é a coisa básica, temos de saber. Nosso nascimento não vem do nada. Há um link definitivo entre as nossas vidas anteriores e nossas vidas futuras, e todos estão ligados a esta vida presente. Se pensarmos que nós nascemos em tal e tal data, e, mais tarde, a nossa vida vai acabar, e que é o fim de tudo, isso não faz sentido. Há uma continuidade nela. Há uma razão por trás do nosso nascimento. O nascimento não é apenas uma ação fisiológica ocorrendo. Nós viemos para esta vida com o karma, o nosso nascimento é com klesha mulaha. O que são esses kleshas? Avidyā: ignorância; asmitā: ego; rāga: apego; dvesha: aversão; abhiniveśa: apego à vida, ter medo da morte. Agora, todas as ações que fazemos são baseadas nestas cinco aflições. E o lago do karma é criado por nossas ações. Nascemos de aflições. Se essas aflições não estivessem lá, não haveria razão para nascer. Essa é a emancipação. Você sabe que quando uma criança nasce ela chora. E quando ele chora, sabemos que a criança está viva. Nós queremos que haja esse som. Mas por que, quando a criança nasce, ela começa a chorar? É uma pergunta. Todo esse tempo no útero da mãe e agora ela sai. E quando ela sai para este mundo, ela se lembra no limiar, naquele momento em que ela chega, ela se lembra de sua vida passada, Oh! Que destino, mais uma vez eu estou neste mundo. É por isso que a criança chora. O riso vem depois. A sabedoria está lá na criança, naquele momento, para dizer, eu não deveria vir a este mundo com esta falha. Eu deveria trabalhar para a emancipação. Mas, então, como chegamos ao mundo, nos envolvemos tanto que esquecemos o que sabíamos no momento do nascimento. Assim, nossas aflições são a raiz. Os karmas que fizemos anteriormente renderam frutos. Se você fez boas coisas, bons frutos. Coisas más, maus frutos. Coisas virtuosas, frutos virtuosos. Coisas não virtuosas, frutos não virtuosos. O Senhor Krishna disse no Gītā que há duas maneiras de ser emancipado. Aqueles que têm a inteligência muito forte seguirão Jñana-Yoga, e os outros vão seguir karma-yoga. Os que têm esse tipo de inteligência estão muito certos de que há um Senhor. Não há dúvida. Assim, sua concentração é apenas em chegar a Deus, eles têm inabalável devoção. Há muito poucos de nós que temos isso. E desde que o karma está incomodando a todos nós, nesse sentido, somos todos karma-yogis. Nascemos com desejos. Quando nascemos com desejos, isso é o que acontece no caminho da nossa emancipação. Fazemos karma-yoga e imediatamente nossa pergunta será: O que é que eu vou conseguir com isso? O Senhor Krishna diz, você faz o trabalho, mas por trás desse trabalho, as intenções não são puras. Você age por ciúme. Por orgulho de agir. É uma honra fazê-lo, você diz. Então você age, talvez até seja uma boa ação, mas o pano de fundo mental, por trás das ações, está cheio desses inimigos. Apesar de a ação externa parecer muito boa. Faça karma de tal forma que seja uma oferta ao Senhor. Você tem que pensar duas vezes antes de fazer qualquer karma. Por que motivos você está fazendo isso? Qual é a sua ideia por trás dela? Isto está servindo a este propósito, o propósito que você pensa? Temos que ver que a nossa mente esteja no karma, a perfeição no karma, e não nos frutos. Se você for solicitado para cuidar de um jardim ou regar as plantas, cuide para que cada planta tenha sido regada. Isso é karma. E não pense: Oh, este jardim pertence a outra pessoa, por que eu deveria me preocupar? O que eles vão me dar quando eu aguar estas plantas? Para fazer karma-yoga, sua mente deve estar limpa, sua intenção pura. Você não deve pensar nos resultados do mesmo. Você não deve ter um desejo que “eu tenho feito esse trabalho, então me deixe entender isso.” Para agir imparcialmente, sua formação mental tem de ser diferente. O Senhor Krishna diz que você faz o karma, mas que há ambição no karma. Você faz ação com ambição; às vezes ambição errada. Você até ora com ambição. Mas não deveria haver essa ambição. Se suas ações são sempre contaminadas com todos os tipos de distúrbios mentais, então isso não é karma-yoga. Externamente pode até parecer karma-yoga. Assim, precisa haver polimento, a limpeza tem que acontecer. Vou te dar um exemplo simples, porque estamos fazendo aula de āsana e prāṇāyāma: você faz o āsana e você não sabe se a ação é certa ou errada. A sensibilidade tem que vir, o sentimento tem que vir. Até aquele momento, você espera. Não pense que porque você evita a ação, isso vai te livrar de karma-bandha, o cativeiro do karma. Ao contrário, você está criando mais karma. Você tem que se limpar fazendo karma-yoga. Faça atos virtuosos sem desejos. Faça karma com o propósito de se limpar. Todas essas impurezas têm para onde ir. Com o karma, você tem que limpar isso. O processo de purificação tem que continuar. Portanto, para concluir isto, eu vou dizer que karma-yoga tem que ser feito por todos, sem desejo. Porque não devemos demarcar o que é o Yoga de Patañjali, o que é karma-yoga, o que é Jñāna-Yoga, o que é Bhakti-Yoga. Śrī Krishna nunca dividiu isso. Ele diz: Saiba muito bem que eu existo. Eu sou o Senhor. Eu existo em você. Eu estou no coração de todos. E eu estou movendo esta máquina. Se a sua máquina está se movendo com o karma, com o jñāna, com o bhakti, com o seu corpo, o seu funcionamento fisiológico, o funcionamento anatômico, Ele diz, eu estou aqui. Então, se você Me sente existindo dentro de você, Ele diz, Eu vou orientá-lo. Se você se render completamente, Eu estou lá, dentro de você, Eu vou te ajudar. Mas enquanto você se diferenciar de Mim mesmo, o Senhor interno, isso não vai solucionar o problema. E é por isso que eu comecei a minha conversa com o fato de que nascemos com esse karma. O processo de purificação tem que ir em frente. E se você fizer isso, vai chegar a hora em que você vai saber que não tem mais vāsanās, desejos. Somente quando o desejo se foi há liberdade deste ciclo de nascimento e morte, nascimento e morte; fazendo karma, sendo preso no karma; fazendo karma, sendo preso no karma. A rede do karma tem que ser quebrada. Faça isso, você conseguirá se desapegar. Se é esse o objetivo, em qualquer nível você tem que começar a segui-lo. E não se pode chegar ao fim imediatamente. Se você quer ir para o Monte Everest, a cada dia você tem que praticar um pouco de montanhismo. Seu corpo tem que se acostumar com cada altitude. Você deve ser capaz de respirar, você deve ser capaz de tolerar. Nós temos que progredir gradualmente, temos que nos aclimatar. Esse é o sādhana [o caminho da liberdade]. E é assim que a purificação acontece. Não diferencie suas ações. É por isso que no final do dia, temos que orar: “Senhor, qualquer karma que eu tenha feito, o que fiz de errado sem saber, o que eu fiz de correto, que eu entregue tudo ao Senhor. O karma começa quando nos levantamos pela manhã. Então, antes de se levantar da cama, pensar no Senhor. De mãos postas diga: Deixe-me ter um darshan das minhas mãos. Não deixe que nada aconteça de errado com essas mãos. Deixe-me perceber minhas mãos, porque com estas mãos eu vou fazer o trabalho. Que nada dê errado, ou Deus, me salve. Então, renda-se ao Senhor Śrī Krishna. Mas se eu fiz algo errado sem saber, certo, aconteça o que acontecer, Śrī Krishna Paramaste. Ele nos protege. Deus abençoe vocês. Tudo do melhor. Eu espero que vocês tenham entendido. Eu não sou uma grande oradora. Mas falei o que veio no meu coração. Muito obrigada mesmo. Publicado originalmente em: http://www.ascentmagazine.com/articles.aspx?articleID=293&issueID=39