As particularidades do Iyengar Yoga – Por Rajvi Mehta

Segue um excelente texto sobre as particularidades de Iyengar Yoga, compilado e escrito por Rajvi Mehta. Rajvi é um dos professores Sênio do método Iyengar que teve a oportunidade de estudar diretamente com o Guruji desde a década de 70.

No ano de 1998, Prashantji fez um tributo para Guruji no Guru Purnima através da conferência intitulada: “Yoga: Nosso Sistema” (Yoga Vaani n. 69 Junho, 2002). Nesta conferência, ele muito clara e precisamente articulou sobre “O que é Iyengar Yoga?” e as características únicas do sistema (de Iyengar Yoga) como: precisão e alinhamento, sequenciamento, permanência e o uso de acessórios. Hoje, ele observa que muitos praticantes estão tão obcecados por estas características que estão esquecendo os princípios por trás delas. Neste artigo, nós esclarecemos os equívocos e explicaremos os princípios por trás da prática de Iyengar Yoga.

“Yoga é simetria” – BKS Iyengar
Antes de Prashantji dar estas conferências sobre nosso sistema, nós como estudantes de Iyengar Yoga iríamos ser imprecisos quando questionados sobre “o que é Iyengar Yoga?”. É o Yoga como praticado por Guruji Yogacharya B.K.S. Iyengar. E se nós fossemos questionados para especificar de que maneira ele era diferente de outros tipos de Yoga, então poderíamos não ser claros em nossas respostas. Muitos de nós nunca praticaram outras formas e conhecem apenas o Iyengar Yoga e a maneira como ele autenticou o que estava nos textos antigos. Então, Prashantji sentiu a necessidade de que nós soubéssemos claramente o que estamos praticando, ou supostamente praticando, e assim claramente articulou as características únicas do Iyengar Yoga.

Hoje, cinco anos depois, se algum professor de Iyengar Yoga é questionado para expressar quais são as características únicas do Iyengar Yoga, então, ele não teria dificuldades em expressar que “Iyengar Yoga é caracterizado por precisão e alinhamento, sequenciamento, permanência e uso de acessórios”. Infelizmente, como Prashantji novamente esclarece, nós nos tornamos tão obcecados por estas 4 características únicas que nós esquecemos os princípios existentes por de trás delas. Desta forma, nós olhamos para o Iyengar Yoga superficialmente e não da real forma ensinada pelo Guruji. A situação é análoga a muitos dos rituais, os quais são comuns em muitas civilizações. Eles eram lógicos, racionais, e há razões por de trás de cada um deles. Os princípios por de trás dessas cerimônias foram perdidos através dos anos.

Por exemplo, em muitas civilizações era muito comum ter elaborados rituais significando marcos importantes na vida humana, tais como: nascimento, puberdade, casamento e morte. Estes rituais são geralmente ridicularizados, considerados não científicos ou supersticiosos e geralmente menosprezados pelos chamados intelectuais. Estes rituais eram basicamente a preparação para uma mudança maior. Ele dava aos indivíduos tempo para absorver e preparar a si mesmos para a nova fase que se iniciaria em sua vida, de modo que esta transição se tornasse mais suave. Imagine uma morte na família. A interação entre amigos e família durante o ritual que se segue dá aos parentes e amigos próximos (do falecido) tempo para aceitar e absorver a perda. De outra forma, o trauma psicológico da morte na ausência de qualquer sistema de suporte poderia ocasionar um colapso de sobrevivência individual.

Hoje, Prashantji notou que muitas das singularidades de Iyengar Yoga são rituais transformados e nós estamos esquecendo os princípios por de trás deles. Se nós não formos até as raízes destas características únicas do Iyengar Yoga, então, o que hoje é considerado a força do Iyengar Yoga nos conduzirá à nossa própria queda e também ao ridículo de nosso sistema. E, isto só aconteceria porque nós estamos interpretando o Iyengar Yoga com a nossa compreensão superficial e não com a profundidade, na qual, o Iyengar Yoga realmente é. Precisão e alinhamento: Precisão e alinhamento na prática de vários asanas formam a marca de Iyengar Yoga. Se as pernas devem estar estendidas, então, elas têm que estar absolutamente estendidas. Se as pernas estão dobradas nos joelhos, então elas devem estar no ângulo correto entre a coxa e a panturrilha. Terá que se ter um alinhamento entre o punho interno e o externo quando as mãos são estendidas para o alto em Urdhva Hastasana, entre a perna esquerda e a direita em Tadasana e Sirsasana; como o peso tem que ser igualmente distribuído na frente e atrás do pé em Tadasana.

Mesmo os professores Juniors de Iyengar Yoga começam suas primeiras aulas de Iyengar Yoga enfatizando precisão e alinhamento. Não obstante, alguns professores estão obcecados pela “precisão e alinhamento” do corpo num ponto ridículo, e estão esquecendo a razão na qual Guruji insiste na precisão. A precisão não é somente uma apresentação geométrica da estrutura do corpo!

A precisão nos asanas não serve meramente ao alinhamento da parte do corpo, mas ao próprio funcionamento do ser humano. Se o corpo é alinhado com precisão, então a respiração é alinhada com a mesma precisão, se a respiração está equilibrada, então a mente, as emoções e os sentidos ficam equilibrados. Nós temos que estudar as conexões de como estes precisos ajustes trabalham. Se nós somos questionados para espalhar e criar espaço entre os metatarsos em Tadasana – isto não é somente para o alinhar o pé interno e o externo para a posição do pé. Mesmo um praticante de primeira viagem perceberia que a extensão do pé conduz para um firme controle do quadríceps (o músculo da coxa), o qual move-se para mais perto do osso da coxa. A firmeza nas coxas conduz para a firmeza e elevação da região gástrica e do baixo abdômen (a qual é a região samânica e apânica). Esta elevação por sua vez, eleva o tórax e a região prânica; a respiração automaticamente se torna profunda e rítmica, com mudanças correspondentes nos sentidos, mente e emoções. Então, a precisão e o alinhamento devem ser acompanhados por um estudo dos efeitos que produzem na respiração e na mente. Para um praticante progredir, ele/ela precisa aprender como os sentidos, a mente e a respiração deveriam ser utilizados para alinhar o corpo.

Permanência: Praticantes de Iyengar Yoga são conhecidos por suas habilidades para permanecer por prolongado tempo em diferentes asanas. Para os iniciantes, isto significa desenvolver sua força de vontade e é essencial nos estágios iniciais da prática. Entretanto, tem que desenvolver além do domínio da força externa, isto é, a determinação. Como Guruji explicou em uma conferência sobre citishakti (Yoga Rahasya 10 4 2003), o praticante deveria se desenvolver em sua própria prática por meio do desempenho no asana, não meramente pela força externa do poder da mente, mas a prática deveria ser como uma vontade intrínseca de permanecer no asana. Isto é como atma (citti) dá a você um desempenho no asana. Então, naturalmente sthirata (estabilidade) e sukhata (alegria) vêm com o asana. Ele não deveria permanecer no asana somente porque alguém próximo está fazendo a postura ou porque o relógio demanda.

O praticante deveria estar no asana em um estado contemplativo, de modo que se medite no asana que está praticando. Nós podemos estender nossa permanência cronológica no asana, mas com qualidade. Caso contrário, a prática não tem significado, mas é de fato prejudicial.

O sábio Patanjali também menciona que os asanas são dominados quando prayatna se torna saithilya. Então, nós precisamos permanecer no asana para que a força requerida para desempenhá-lo seja cada vez menor. Nós podemos permanecer a mesma quantidade cronológica de tempo, mas o esforço requerido para manter-se deveria ser diminuído. Como Prashantji tem geralmente mencionado nas aulas “não inspire até que você expire”.

O desempenho no asana inclui entrar, permanecer e sair do asana. Nós tendemos a não dar suficiente ênfase na saída do asana. Para nós, o asana termina na fase da permanência. Nós prolongamos a permanência do tempo cronológico para permanecer no asana e depois, não temos energia suficiente para pensar como sair dele. É como utilizar toda a energia e recursos para escalar uma montanha e não ter energia suficiente para descer.

Sequenciamento: Como praticantes de Iyengar Yoga, nós somos cientes de que não são somente os mesmos asanas, mas como você os desempenha, por quanto tempo você permanece no asana, e também a sequência na qual eles estão sendo realizados que determinam o efeito destes asanas. A sequência na qual os asanas são praticados é determinada por vários fatores. Isso inclui: a proposta da prática, o clima, o horário do dia, o estado de saúde e o nível do praticante. Com uma quantidade maior do que 200 asanas, pode haver qualquer número de permutas e combinações. Entretanto, há certas “regras de ouro”. Por exemplo, Sarvangasana nunca é praticando antes de Sirsasana. A prática comumente termina com Savasana ou outro asana relaxante.

Infelizmente, alguns professores e estudantes tendem a exagerar com o conceito de sequencias. Eles pensam que sequencias são como mantras. Uma sequencia para uma doença. Uma sequencia para um indivíduo. Era totalmente engraçado quando uma estudante estrangeira no Instituto sentia que ela havia sido ensinada no RIMYI, uma vez que ela recebera a sequência DELA. Embora, ela estivesse assistindo aulas com Geetaji e Prashantji por mais de um mês. É importante reiterar aqui que o praticante precisa entender os princípios por trás da sequencia, mais do que somente memorizar a sequencia! Repetir uma sequencia ensinada no Instituto não dará essencialmente o mesmo efeito.

Acessórios: Os acessórios são o fruto do gênio inovador de Guruji. Graças aos acessórios, pessoas de todas as idades e estados de saúde podem praticar asanas com facilidade e obter os benefícios da prática de Yoga. Como Guruji explicou durante a apresentação na celebração de seu aniversário de 85 anos, o acessório não deve ser usado somente como uma muleta ou um suporte, mas deve-se aprender com ele. Este aspecto não tem sido abordado aqui, como já foi abordado com “Por que nós usamos acessórios” (“Why Do We Use Props”- Yoga Rahasya 11:1:2004).

Hierarquia na prática: Um dos mais importantes aspectos do Iyengar Yoga é a hierarquia na prática. Um iniciante pode aprender Trikonasana em sua primeira aula, enquanto Guruji também pratica Trikonasana depois de 70 anos. Ambos os asanas são Trikonasana, mas a qualidade do asana é totalmente diferente. Para um iniciante, o asana está totalmente em um plano esquelético, enquanto o Guruji estaria em um estado de meditação em Trikonasana. O Trikonasana de um principiante seria controlado e guiado por seu/sua professora, enquanto o Trikonasana do Guruji seria guiado por citti.

Então, como estudantes de Iyengar Yoga, nós temos que praticar o asana e progredir na hierarquia de nossa prática. Nós deveríamos alinhar nosso sharira. É imperativo, mencionar aqui que sharira, o qual foi perdidamente traduzido como corpo em Inglês, na realidade envolve nossa respiração, mente, sentidos, intelecto e emoções. Então, embora nós iniciemos com o alinhamento físico, nós temos que progredir para incluir o completo significado de sharira.

Nós devemos envolver em nossa prática não só o tempo do relógio, mas o desempenho para alcançar sthirata e sukhata com a prática que progressivamente será governada pela vontade, mente, respiração, inteligência e finalmente o citti.

Se e somente se nós entendermos os princípios por trás das características únicas do Iyengar Yoga, nós estaremos hábeis para progredir na hierarquia da prática: que é o quinto e mais importante aspectos de Iyengar Yoga.