Iyengar e a Tradição do Yoga

guruji

Karl Baier

Parte I

Questões Básicas 1) Introdução: Controvérsias sobre o método Iyengar de Yoga Tanto na Índia quanto no mundo ocidental o caminho do Yoga desenvolvido por BKS Iyengar tem causado controvérsia ao longo das últimas duas ou três décadas. Não se pode dizer que o debate até agora tem sido particularmente de alto nível. É algo que pode ser caracterizado pela repetição de um punhado de clichês. Os críticos do método Iyengar censuram-no por reduzir o Yoga a meros exercícios físicos. Eles condescendentemente olham para baixo ao se referir aos “yogis das patelas” que se permitem serem torturados por seu mestre sádico. Os eufóricos apoiadores de B.K.S Iyengar retrucam, afirmando que os críticos não têm idéia do que se trata o Iyengar Yoga. É muito mais do que simples ginástica, dizem eles. O mestre não é agressivo também, mas através de seu comportamento provocante ele ensina os alunos a se tornarem humildes e fazer o seu melhor. Cheios de desprezo, os estudantes de Iyengar olham para baixo ao se referirem aos “yogis de poltrona”.”Eles querem meditar e não podem sequer esticar os joelhos ainda”! Pode-se perguntar qual a dinâmica psicológica que existe por trás do fato de que dois grupos, em virtude de seus preconceitos, constantemente destituem-se um ao outro com os mesmos argumentos. Acontece que muitas vezes, nesses casos, cada lado atinge o outro onde dói. No entanto, em vez de admitir ter sido atingido, cada um responde imediatamente com um contra-ataque. Eu não quero tomar parte na controvérsia entre os “yogis das patelas” e os “yogis da poltrona”, mas, ao invés, tentar contribuir com uma transformação desta discussão, muitas vezes infrutífera, numa discussão mais interessante. A fim de ir além dos preconceitos habituais e entrar numa investigação objetiva é necessário estudar cuidadosamente a relação entre a forma do Iyengar Yoga e do Yoga tradicional. Para dar alguns passos iniciais por esse caminho, eu uso as observações de B.K.S.Iyengar sobre esta questão como um ponto de partida. Como o Iyengar Yoga é muito complexo, e a tradição do Yoga como um todo é um assunto extenso e difícil, eu posso resolver apenas alguns aspectos dele, sem pretensão de completude. 2) Principal fonte de referência de B.K.S Iyengar da tradição do Yoga tradicional Primeiro é preciso perguntar o que significa Iyengar Yoga quando a referência é o Yoga tradicional. Que tradições da história do Yoga são essenciais para ele? Em seguida, o modo como ele mesmo determina a sua relação com a tradição deve ser examinado. Onde ele vê as diferenças e onde ele vê as conformidades? Além disso, a relação da prática de Asana e de Pranayama do Iyengar Yoga com as formas tradicionais deve ser analisada. Finalmente, seria particularmente interessante saber as razões que ele dá para as peculiaridades de seu método. Em sua “mensagem em seu 70º aniversário”, Iyengar diz: [i]”O que eu faço é o puro, autênticoYoga tradicional”. O que ele quer dizer com Yoga tradicional puro, autêntico, ele explica, no mesmo discurso, como segue: [ii]”O Yoga como eu ensino é puramente Astanga Yoga, conhecido como os oito membros do Yoga, expostos por Patanjali em seus 196 sutras concisos, cada um dos quais reflete conhecimento experimental profundo, complementado com textos do Hatha Yoga, do Gita e outros. Aqui uma resposta é dada à nossa primeira pergunta sobre o que B.K.S. Iyengar se refere quando ele fala sobre a tradição do Yoga. Sua principal fonte de referência, diz ele, são os Yoga Sutras de Patanjali, particularmente o Astanga Yoga como descrito no segundo e terceiro capítulos dos Sutras. Um olhar sobre os capítulos introdutórios de “Light on Yoga” e “Light on Pranayama”, confirma isso, pois ao responder à pergunta “O que é Yoga?” Ele constrói principalmente sobre Patanjali lá. 3) Seu princípio de interpretação: o texto original em relação a sua própria experiência do Yoga Claro, a afirmação de B.K.S Iyengar da prática do “puro Astanga Yoga” soa exagerada e muitas vezes em tom combativo. Este exagero só pode ser compreendido quando lido no contexto da crítica que ele teve que aturar toda a sua vida, que o repreendeu por ele ser enraizado de maneira imperfeita na tradição do Yoga. Além disso, como parte do papel social de Guru que lhe toca, geralmente, ao fazer discursos, Iyengar nunca diz “talvez” e “provavelmente”, mas tende a falar em termos de certeza absoluta. Esse tipo de comportamento não é necessariamente pura vaidade, uma vez que na sociedade indiana espera-se mais ou menos que um Guru aja assim. Mas quem pode afirmar que sabe o que é puro Astanga Yoga? Os Yoga Sutras são multifacetados e opacos, e como todo documento histórico, eles chegaram até nós porque passaram por uma história de interpretações e reinterpretações. Não é o próprio Iyengar que diz que a sua visão do Astanga Yoga é influenciada pelo Gita, textos do Hatha-Yoga, Upanishads, etc, que são dificilmente compatíveis com o Yoga de Patanjali? A questão fundamental aqui é: O que significa pureza? É muito superficial pensar-se que algo permanece puro apenas porque ele é repetido da mesma maneira. A coisa é pura na medida em que permanece em união com a sua fonte primária e essência e, portanto, não é alienada de si mesma. No fluxo do tempo tal identidade só é possível se a coisa muda, sempre mostrando-se de uma maneira nova e fresca. E por essa razão, se queremos preservar a pureza de algo, temos de mantê-lo vivo, transformando-o de acordo com as novas formas de compreensão, que se encaixam ao nosso tempo e experiência. E é isso que Iyengar tenta fazer em sua interpretação de Patanjali. Ele diz: [iii]”Os Sutras de Patanjali têm atraído considerável atenção e há muitos comentários sobre eles. A maioria dos comentaristas têm abordado o tema do Yoga de maneira objetiva ou do ponto de vista acadêmico. Por outro lado, eu respondi a ele subjetivamente, comparando os meus sentimentos e experiências com os textos originais, através da prática e refinamento ininterrupto. ” De acordo com essa declaração ele quer revelar a essência de Patanjali de uma maneira nova, usando dois princípios de interpretação. Em primeiro lugar ele fica próximo do texto original, e não para os comentários mais acadêmicos, que não estão pessoalmente envolvidos no assunto. Em segundo lugar, ele compara a mensagem de texto com a sua própria experiência em praticar e refinar o Yoga. Ao estudar a tradição, ele tenta melhorar a compreensão à sua própria maneira, dando clara prioridade à experiência em praticar e ensinar: [iv]”Embora eu seja racional, estou sentimentalmente preso à tradição. Eu confio nas declarações dos outros e sigo sua linha de explicação e repito os experimentos para ganhar experiência. Se a experiência coincide com suas expressões, eu aceito suas declarações. Caso contrário, eu descarto, vivo minhas próprias experiências e vivências, e faço meus alunos sentirem o mesmo que eu senti em minhas experiências. Se muitos concordam, então eu tomo isso como um fato comprovado e transmito-o aos outros. ” Iyengar considera seu caminho como Yoga tradicional, no qual ele considera os Yoga Sutras, particularmente o caminho de oito membros, como um quadro categorial adequado do Yoga, em geral, e do seu método especial também. Nisso, ele toma a liberdade de não convencionalmente reinterpretar os Sutras a partir de suas experiências, tomando a prática e o ensino do Yoga como um campo de testes para os pensamentos escritos nos textos antigos. [i] 1 Light on Yoga Research Trust (Ed.), 70 Glorious Years of Yogacharya B.K.S. Iyengar, Bombay, Light on Yoga Research Trust, 1990, p. XXVII. [ii] 2Ibid. p. XXVIII. [iii] Ibid. [iv] Ibid. p. XXVII *Copyright c 2001 by Karl Baier. “Iyengar and the Yoga Tradition”was first published in: BKS Iyengar Yoga Teachers’ Association News Magazine, Glossop, Derbyshire, Winter 1995, pp. 12-32. The article may be printed for personal use but may not be commercially distributed. [autor =”Daniela”]