Dando o Próximo Passo: a Fé e as Vitaminas do Yoga

Onde quer que estejamos com a nossa prática, sempre há o próximo passo que podemos tomar para enriquecer nossa experiência e aprofundar nossa compreensão de nossa verdadeira natureza. Este é o caso, se estamos apenas começando uma prática de yoga ou se temos praticado há anos (ou vidas). À medida que começamos um novo semestre de aulas de yoga, este é um bom momento para perguntar: estou pronto para dar o próximo passo? Minha prática se tornou entendiante ou mecânica? Se tenho hesitado em dar o próximo passo, o que é que está me prendendo? Mesmo nos tempos antigos, os yogues reconheceram que platôs são inevitáveis ​​no caminho. No Yoga Sutra, Patanjali nos dá alguns apoios para nos ajudar a redobrar nossos esforços e a recomprometer a prática, quando confrontados com obstáculos. Entre eles estão cinco qualidades que BKS Iyengar chamou de “vitaminas do yoga” (ver: BKS Iyengar, Árvore do Yoga): a fé (sraddha), vigor (virya), memória (smrti), concentração (samadhi), e sabedoria (prajna ) (Yoga Sutra I.20). A primeira delas – a fé – é ao mesmo tempo a mais fundamental e também a mais misteriosa das vitaminas do yoga. É a mais fundamental, pois é a base para as outras quatro. Em seu comentário sobre os Yoga Sutras de Patanjali, Vyasa compara a fé à mãe benevolente que orienta a criança. A fé vem do coração e fornece a energia para a prática constante e dedicada, que por sua vez, constrói um armazém de memória dentro de nossas células. À medida que nós aprofundamos essas memórias (smrti) e as impressões positivas (samskaras) da prática, reforçamos a nossa capacidade de perseverar (virya), de absorção (samadhi), ganhamos insights (prajna), e experimentamos alegria em nossa prática. Nós deixamos a corrente de nossa prática fluir através de nós sem resistência e nos levar para mais e mais perto do Self. Ao mesmo tempo, a fé também é misteriosa porque, de todos os suportes do yoga mencionado, é a único que não pode ser manifestada através de um ato de vontade. Enquanto a energia que colocamos em nossa prática determina o resultado, se nos aproximamos de nossa prática com a energia agressiva do ego, algo inevitavelmente se queima. Joelhos e ombros ficam desgastados, o corpo se desmembra, ou a exaustão se instala. Como Guruji diz, a vontade que vem do cérebro, eventualmente se acaba porque o ego é finito. Mas “a vontade que nasce da inteligência do coração está ligada a um recurso infinito… é um poço que nunca secará” (BKS Iyengar, Luz na Vida). Quando vemos vídeos e fotos de demonstrações de BKS Iyengar ao longo dos anos, nós compreensivelmente nos maravilhamos com a força e a fluidez de sua apresentação. Poderíamos muito bem pensar que essas posturas sempre vieram fáceis para ele, e que não podemos aspirar ter seu nível de desempenho. Mas, como Guruji tem escrito a prática nem sempre progride em linha reta. Ao longo do caminho, pode haver contratempos, frustrações e decepções. Guruji tem escrito que por longos anos sua prática ficou estagnada, e era seca e sem vida. Ele falou sobre as décadas que levou para dominar pranayama. Durante esse tempo, foi uma fé sincera (sraddha) que o manteve no caminho e permitiu-lhe continuar a praticar de forma ininterrupta, com devoção, mesmo quando ele não podia prever o resultado. De uma maneira simples e essencial, a fé, é aquele desejo de continuar a avançar. É a coragem de dar um passo à frente para o desconhecido, e de encontrar o que quer que seja que o momento seguinte traga, com os olhos abertos e um coração receptivo. Como Sharon Salzberg escreve: “A fé é a animação do coração que diz: ‘Eu escolho a vida, eu me alinho com o potencial inerente à vida, eu me entrego a esse potencial’”. Essa centelha de fé é incendiada no momento em que pensamos, “vou fazer isso; eu vou tentar. ” Os comentaristas clássicos dos Yoga Sutras também sugerem que sraddha refere-se a fé em nossa prática. Se chegamos ao yoga para curar um corpo ferido, acalmar uma mente perturbada, ou alcançar a união com o Ser interior, temos fé de que a prática que temos empreendido em última instância pode nos transformar. E a coisa maravilhosa é que esta fé não é algo externo a nós: todos nós já temos a semente da fé dentro de nós. Nós não podemos ser capazes de reconhecê-la imediatamente ou de saber como alimentá-la, mas podemos aprender a fazer os dois. O fato de que continuamos a ir para as aulas, continuamos a desenrolar os nossos tapetinhos em casa para a prática é uma prova disso. E mesmo quando temos problemas praticando em tempos difíceis, o fato de que algo dentro de nós diz: “por que você não pratica?” – Mesmo que a voz seja abafada por outras vozes – mostra-nos que, no fundo, a semente da fé está lá, esperando para ser cultivada. Dos obstáculos listados por Patanjali, a dúvida é o que mais obviamente se coloca em oposição à fé. A dúvida é a voz que surge dentro de nós e diz: “Eu não posso fazer isso”, ou “por que eu deveria me preocupar?” Ou “quem é você para pensar que você poderia conseguir isso?” A dúvida alimenta nossos medos mais profundos – os pensamentos que roem nossos corações e nos fazem sentir incapazes, indignos, e não amados. Quando experimentamos dúvida, a mente está dividida. Parte da mente pode estar disposta a ir para a frente e a dar o próximo passo, mas as outras partes estão nos segurando e minando nossos esforços. Muitas vezes, em sala de aula ou em público, BKS Iyengar vai perguntar: “Há alguma dúvida?” Isso muitas vezes causa risos entre os estudantes ocidentais, porque enquanto nós sabemos que eles estão perguntando se há alguma dúvida ou pontos que necessitam de esclarecimento, nós não costumamos pensar essas questões como “dúvidas.” Mas se nós parararmos e pensarmos sobre isso, confusão ou falta de clareza sobre as coisas mais básicas em nossa prática é o que dá origem a dúvidas. Se não temos clareza, por exemplo, sobre se as coxas devem girar para dentro ou para fora em urdhva dhanurasana (postura do arco para cima), a mente fica dividida. Parte da mente diz: “Vou girar as coxas para dentro” e outra parte diz: “vou girá-las para fora”, e nos falta o discernimento para saber o que vai nos ajudar a progredir em nossa prática. É claro que, se temos a chance de perguntar aos nossos professores, podemos obter alguma orientação para dissipar esta dúvida, mas se não, então o que vamos fazer? Em vez de deixar a confusão nos paralisar, podemos dizer, deixe-me praticar urdhva dhanurasana em ambos os sentidos, girando as coxas para dentro e depois girar as coxas para fora. Eu não posso saber agora qual é a melhor ação, mas eu tenho fé que se eu praticar com atenção compassiva e consciência, se eu refletir sensivelmente nas sensações que vêm como resultado, se eu comparar a minha experiência presente com a experiência anterior neste e em outros asanas, então eu posso discernir qual ação me dá a sensação de espaço interior, de estabilidade no esforço, mente focada em um ponto, e benevolência da consciência. Nós convidamos você neste semestre a colocar a fé e as vitaminas do yoga em prática na sua própria vida. Por exemplo: • Escolha uma postura que evoca o medo em você ou que você simplesmente não gosta de fazer. Por exemplo, Ardha Chandrasana (postura da meia-lua), sirsasana (apoio sobre a cabeça), Adho Mukha Vrksasana (parada de mão), Pinca Mayurasana (apoio sobre os antebraços), ou urdhva dhanurasana (arco para cima). Veja se você pode rastrear as posturas mais básicas que irão prepará-lo para as mais difíceis. Comprometa-se a praticar essas preparatórias três vezes por semana durante um mês, e cultive a fé que este trabalho irá torná-lo apto para enfrentar o asana mais desafiador. • Às vezes você não quer praticar de qualquer maneira, mas você o faz e no final, podem ser as práticas mais benéficas e satisfatórias. Mesmo quando você não pode imaginar como ou por que ela vai te ajudar, tenha fé que em algum lugar, bem abaixo da superfície, as ações que você está tomando estão plantando uma semente. Se você tiver problemas praticando mesmo quando você define a si mesmo a intenção (sankalpa) para fazê-lo, tente o seguinte: da próxima vez que você encontrar-se oscilando entre praticar e não praticar, diga a si mesmo: Deixe-me pelo menos fazer Adho Mukha Svanasana (cachorro olhando pra baixo) e uttanasana (flexão em pé) , e em seguida, deixe-me ver como me sinto. Tenha fé que dar o primeiro passo o conduzirá a um segundo passo e a um terceiro, e assim por diante. • Você acha pranayama difícil ou chato? Comprometa-se a fazer 5 minutos de respiração consciente em savasana um dia, mesmo que a mente divague. Se isso começa ficar fácil, adicione cinco minutos de respiração consciente, sentado em svastikasana. Como um agricultor cultiva o campo, planta as sementes, e as rega diariamente, tenha fé que essa prática vai dar frutos. Enquanto a fé é o antídoto para a dúvida, a fé do yoga não é uma fé cega. Não é a adesão a um sistema de crenças rígidas ou uma confiança cega em uma figura de autoridade. A cada dia, a nossa prática nos dá a oportunidade de testar o que foi ensinado, para verificar seus princípios fundamentais, para descobrir a verdade de nossa natureza mais profunda, e para experimentar de novo a alegria que pode vir da conexão com o nosso ser mais profundo. Enquanto nós mantivermos fresca a intenção (sankalpa) de sermos abertos, de caminhar corajosamente para o desconhecido, e de encarar cada dia com uma fé inabalável, podemos confiar que a nossa prática e a luz interior da Alma continuará a nos sustentar . Não espere pela força antes de agir, porque a imobilidade irá enfraquecê-lo ainda mais. Não espere para ver claramente antes de começar; você precisa caminhar em direção à luz. Quando você der o primeiro passo e realizar esse minúsculo ato, aquela necessidade que pode ser apenas aparente para você, você ficará surpreso por sentir que o esforço, em vez de esgotar a sua força, duplicou-a e que você já vê mais claramente o que você tem que fazer em seguida. “ Philippe Vernier Por Patricia Walden & Chen Jarvis: publicado em 27 de agosto de 2010 Traduzido de: http://patriciawalden.wordpress.com/2009/08/25/taking-the-next-step/