Criando harmonia a partir do caos

O corpo humano consiste em milhões e milhões de células agrupadas em milhares de tecidos que, por sua vez, se conectam para formar os órgãos. Esses órgãos funcionam em coesão e formam diferentes sistemas fisiológicos do nosso corpo, como, por exemplo, o digestório, o cardiovascular, o excretor, o respiratório, o nervoso e o endócrino. O corpo é dividido em diferentes sistemas fisiológicos mais por conveniência, para facilitar o entendimento dos estudantes de anatomia e fisiologia. Entretanto, esses sistemas, esses órgãos, não funcionam independentemente um do outro. Cada um desses órgãos realiza ações e funções além daquelas “atribuídas” a eles. Por exemplo, ainda que o fígado e o pâncreas sejam vistos como órgãos digestivos, eles também desempenham um papel na respiração. De fato, o corpo humano seria um sistema caótico se todos esses órgãos e sistemas funcionassem independentemente. A harmonia entre os sistemas é responsável pelo funcionamento fluído do complexo corpo humano.

Os braços e pernas são considerados órgãos de ação. Sua função, contudo, não se restringe a ação e movimento somente, mas eles também afetam o corpo orgânico. Ásanas são muitas vezes (mal) entendidos ou traduzidos relapsamente como exercícios ou movimentos corporais. Isso porque ásanas são realizados por diferentes tipos de ações do corpo e no corpo. Por exemplo, se estamos executando Bharadvájásana e seguramos a coxa esquerda com a palma da mão direita, então a palma direita não é usada “somente” para suportar a espinha quando ela gira, mas também para trazer movimento/ação em diferentes partes do corpo. Isso pode ser compreendido se você imaginasse que os braços não fossem “vivos”, mas somente elementos externos, de madeira, utilizados para suporte, então não haveria “vida” no ásana. Bharadvájásana então se tornaria um exercício e não um ásana.

O braço é efetivamente utilizado para realizar diferentes movimentos nos diferentes órgãos do corpo, assim como pulmões, fígado, pâncreas e intestino. A mão em Bharadvajasana pode ser utilizada para acessar a espinha dorsal e desta forma atuar nos pulmões; ou pode ser utilizada para agir no banda diafragmática e assim trabalhar nos órgãos abdominais superiores – fígado, pâncreas e rins; ou, ainda, a mão pode ser utilizada para trabalhar a parte inferior da espinha dorsal e os órgãos abdominais inferiores. A mão pode efetivamente ser utilizada para agir em diferentes partes do corpo. Além disso, o efeito dos braços nas diferentes partes do corpo é afetado pela respiração. Quando torcemos a espinha em Bharadjávásana enquanto expiramos, o efeito é sentido mais na espinha. A rotação da espinha é restrita quando executamos o ásana com inspiração. Há uma mudança total no estado mental em ambos os casos.

Toda ação traz em si dois tipos de vibração (spanda em Sânscrito). Essas vibrações podem ser de ação (kriyá spanda) ou de sensibilidade (samvit spanda). Como um iniciante na prática de ásanas todas as nossas ações são densas e levam a uma vibração de ação. Mesmo quando iniciamos nossa prática o corpo está lento e existe mais ação, mais kriyá. Todas as nossas ações são inicialmente ditadas pela vibração de ação ou kriyá spanda e há pouca vibração de sensibilidade ou samvit spanda.

Gradualmente, conforme progredimos na prática, devemos tentar trazer menos kriyá e mais samvit para nossos ásanas. Essa mudança na orientação da nossa prática pode ser alcançada através de uma mudança no foco de atenção e no movimento enquanto executamos o ásana.

Usando o exemplo do Bharadvájásana outra vez, se executá-lo com uma exalação forte focada na região pélvica haverá mais kriyá nos braços – de fato você sente o movimento dentro dos braços do centro para a periferia. Quando se executa o mesmo ásana com uma inalação forte focada na região torácica então há mais kriyá spanda, mas sua localização de kriyá spanda nos braços é distinta – mais na parte superior dos braços. Entretanto, quando se executa o mesmo ásana com uma exalação na região da face, há um salto de kriyá para samvit.

Outra forma de passar de kriyá para samvit é observar a respiração – nas narinas ou na região torácica, ou onde se puder sentir de forma mais clara a respiração enquanto se executa e mantém o ásana. Enquanto tentar manter o ritmo da respiração, haverá mais samvit spanda que kriyá spanda. O praticante perceberá como se a sensação nos braços se move da periferia para o centro. Um processo de internalização.

Mas não é possível seguir adiante aumentando sempre o samvit spanda (vibração de sensibilidade). Um colapso é eminente. A fase samvit deve ser intercalada com kriyá nesse ponto.

Para reiterar, cada ásana deve ser executado com um equilíbrio entre kriyá e samvit spanda. Como um iniciante, nosso ásana e prática é mais orientado para a ação. De qualquer maneira, conforme evoluímos na prática, assim como na nossa prática do dia, nosso ásana deve orientar-se mais para a sensibilidade. Isso pode ser alcançado através das técnicas descritas. Mas, quando a vibração de sensibilidade diminuir, o praticante deve recarregar com vibração de atividade.

O praticante está totalmente “internalizado” quando os ásanas são executados dessa maneira, o estado mental é bem diferente – muito calmo – um estado que para alguns pode estender-se mais além do que as palavras podem expressar.

Praticar ásanas como ásanas leva a uma neutralidade na polarização. Tudo pode permanecer calmo dentro de condições controladas. Mas permanecer calmo em condições extremas e desfavoráveis é o que o yoga nos ensina. A calma em diferentess situações e cenários segue de diferentes processos como uma caótica estação de trem tem um processo de quietude se comparada com um sereno templo ou santuário. Então, diferentes conjuntos de ásanas destinam-se a conquistar maior quietude e têm diferentes canais ou processos para atingi-la. Por exemplo, a quietude do ciclo do Sirsásana é um processo enquanto a quietude do ciclo do Sarvángásana é outro processo. A quietude de uma flexão para frente e de uma torção são processos diferentes. Esses processos ajudam o praticante a atingir a tão desejada quietude nos mais variados cenários. Assim o estudante aprende a alcançar a quietude em uma caótica estação de trem ou no caos do mercado de ações. O aluno está preparado para alcançar a quietude em uma condição de inquietude.

Um incremento na sensibilidade leva a um incremento emocional. E o emocional é necessário para aqueles que querem entrar em um estado meditativo. Meditação é uma profunda absorção e envolvimento e sem um apelo emocional o praticante não será absorvido ou envolvido. Então o emocional é uma faceta importante na prática yóguica e o yoga é primeiramente meditativo.

Autor: Prashant S. Iyengar
Yoga Rahasya – Vol. 9.4; 2002

Tradução livre: Ana Paula Vaz dos Santos Revisão: Roberta Maran
Revisão e publicação: Jonathan Batista