Como eu aprendi Pranayama por B.K.S. Iyengar

A primeira coisa que eu faço quando levanto as 4 da manhã é praticar Pranayama. Eu me pergunto: se eu nascesse hoje, como começaria a minha primeira respiração? Assim eu começava o Pranayama a cada dia. E pode interessar a você, como minha mente reagia. Eu também aprendi algo com essa abordagem.

Sendo uma pessoa doente quando eu comecei o Yoga, eu não tinha forças para ficar em pé e meus pulmões não eram expandidos. Naturalmente, respirar era uma grande dificuldade para mim. Eu comecei praticando asanas. Então, as circunstâncias me forçaram a ensinar Yoga. Como eu tinha que ensinar Yoga, eu tinha que aprender Yoga. Em ordem para aprender, eu tive que desaprender e reaprender, então, as ligações de aprendizado iam em frente e em frente, e foram se movendo assim.

Naturalmente, neste momento, não era possível para mim praticar pranayama e nem meu Guru estava disposto a me ensinar. Eu tinha um peito estreito e colapsado. Eu não fiz pranayama até 1942. Quando meu Guru me visitou em Puna em 1940 e eu o questionei sobre pranayama, ele somente me deu uma introdução. De qualquer maneira, minha juventude não teria permitido mais do que ele me disse. Ele me aconselhou a fazer respirações profundas, as quais eu tentei, mas sem sucesso. Eu não podia inspirar profundamente nem expirar normalmente. A respiração profunda era fisicamente impossível para mim. Quando eu o questionei do porque eu estava falhando no que eu havia tentado, ele disse: “continue, pois virá”. Mas nunca veio.

Cada dia, eu levantava pela manhã com vontade na minha mente, de que eu deveria sentar. Eu tinha o hábito ruim de tomar café todas as manhãs. Eu costumava tomar uma xicara de café para limpar os lugares mais internos do meu corpo. Então, eu costumava sentar em Padmasana para iniciar o meu pranayama. Dentro de um minuto, minha mente dizia: “Sem pranayama hoje”. No momento em que eu colocava meus dedos nas narinas, os pêlos internos das narinas costumavam ficar rebeldes e eu costumava suspirar. Então, naturalmente, aquele não era um dia para pranayama.

Eu continuei com isso sem conforto. Mesmo depois que eu me casei, eu costumava acordar minha bela esposa dizendo que eu tinha que fazer pranayama e pedia por uma xícara de café. Ela preparava o café e enquanto não ficava pronto, eu permanecia na cama. Quando o café estava pronto, eu limpava meus dentes para tomar o café e minha esposa voltava para a cama. Então, poucos minutos sentado e meus pulmões não podiam respirar profundamente e rebelavam-se. E desta maneira, eu tentei, tentei, mas acreditem em mim, eu nunca tive sucesso na minha prática de pranayama.

Então, eu comecei a praticar trataka (contemplação). Em um grande cartão, eu costumava fazer um círculo preto com raios como o disco do sol. Eu disse: “Eu não posso fazer pranayama, então, deixe me fazer trataka”. Eu comecei a contemplar sem piscar os olhos. Então, meu pranayama terminou com trataka. Eu tinha lido em alguns livros que trataka daria esse poder ou que o poder viria. Eu costumava contemplar por um longo tempo, mas nada vinha para mim. E então aconteceu que trataka trouxe algum desconforto para meus olhos e para o meu cérebro, então, eu parei de praticar. Eu mesmo tinha conhecido yoguis que desenvolveram cegueira diurna causada pelo trataka.

Eu estava tentando o pranayama chamado Ujjayi, inspiração e expiração profundas. Se eu falhava, eu costumava fazer nadi sodhana, o qual todos diziam ser um pranayama muito bom. Em 1944, eu tive a oportunidade de ir a Mysore com minha esposa. Ela estava grávida de nosso primeiro filho, eu fui obter a benção de meu Guru. Ele era um mestre em pranayama naquele tempo. Ele nunca tinha feito pranayama na presença de alguém. Ele costumava faze-lo em sua própria sala, então, não existia chance de vê-lo praticar. Mas aconteceu que ele estava sentado em uma sala praticando pranayama. Eu vi como ele posicionava os dedos no nariz e foi a única lição indireta que eu tive dele.

Eu retornei para Puna e mais uma vez comecei a tentar. Eu não podia sentar todo ereto como ele, por causa de todas as retroflexões iniciais. Minha coluna costuma curvar-se para trás se eu sentasse reto. Eu não tinha força para resistir. Naturalmente, sem resistência, eu não poderia sentar reto e o pranayama nunca veio. Até 1960, meu pranayama foi um completo fracasso. Foi um processo longo, mas você deve apreciar a oscilação da minha paciência e impaciência equilibradas em conjunto. Outros teriam desistido, mas eu não desisti.

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Cada manhã, eu costumava levantar religiosamente as 4 da manhã e sentava para pranayama. Eu costumava sentar por dois ou três minutos, e então, eu precisava abrir minha boca para pegar o ar. Ou se eu fizesse duas respirações, eu tinha que esperar por alguns minutos para fazer outra respiração profunda. Com o passar do tempo, eu estava inquieto. Como eu não podia fazer pranayama em Padmasana, eu tentei deitar. Depois de duas ou três respirações, eu costumava sentir um peso na minha cabeça. Desta maneira, eu tentei implacavelmente fazer pranayama oscilando entre asanas sentado e Savasana.

Todos os mestres de Yoga dizem que, se você não está com bom humor, e você pratica pranayama, você recupera o seu humor. Eu sou o único homem que diz, que se você é temperamental, ou às vezes tem uma mente agitada, você não pode praticar pranayama. Através das minhas falhas, eu também aprendi bons pontos.

As vezes, eu costumava sentir muito frescor com duas ou três respirações e em outras vezes sentia-me temperamental, com peso nos pulmões e tensão no cérebro. Alguém me deu um livro escrito por um cavalheiro em 1800, o qual dizia: se você mantiver um algodão no peito enquanto exala, ele não deve tremer. Lendo isso, eu comecei exalando e eu não podia inalar totalmente. Os livros explicavam a qualidade da exalação, mas não mencionam a qualidade da inalação que poderia ser encontrada.

Em 1946, eu estava ensinando Krishnamurthi em Puna e a teoria dele do estado de alerta passivo foi para mim como manter um algodão livre na frente do peito exalando sem causar um distúrbio nas fibras desse algodão. Ele expressou novas palavras, mas a ação era antiga. Eu comecei a fazer exalações com estado de alerta passivo. Quando eu inalava, sem sentir o toque da respiração em minhas narinas, o meu coração começava a bater mais alto. Então, eu fiquei preso entre eles não sabendo como continuar. Eu comecei com uma inalação suave trazendo um toque gentil para a cavidade interna do nariz. Eu senti uma sensação de satisfação e quietude. Assim, eu pensei, este deve ser o método correto e eu comecei a manipular os músculos intercostais do peito, os dedos no nariz e assim para frente.

Desta satisfação eu comecei a aprender a colocar gentilmente os dedos em meu nariz como eu tinha visto meu Guruji fazendo a fixação dos dedos no nariz em 1944. Meu próprio estudante, Yehudi Menuhin, foi como um guru indireto de como eu aprendi a localizar os dedos muito precisamente na passagem das narinas, ele nunca soube que eu aprendi com ele. Eu observei o manejo dele com os dedos, a mobilidade das juntas com o toque arqueado da ponta do polegar na corda do violino e os dedos na corda. Isso me deu a dica sobre como colocar o polegar e o dedo no nariz para controlar o “tapete” interno das membranas e o traço da exata passagem do ar par ao meu pranayama.

Em 1962, eu estava em Gstaad na Suíça. O clima estava muito bom naquele ano. Usualmente, eu costumava acordar as 4 da manhã para preparar meu próprio café e praticar pranayama. Um dia, eu fiquei feliz ao sentir o aroma da inalação, não estava tão frio e nem tão quente. Algumas sensações vieram e outras sensações me deram a chave para desfrutar as inalações e as exalações. Este foi o primeiro sentimento que eu obtive na prática do meu pranayama.

Como eu disse, eu vinha praticando muitas retroflexões, eu podia permanecer em Kapotasana por 15 minutos; Um dia, eu decidi praticar flexões para frente, como Janu Sirsasana – Eu pude permanecer por poucos minutos. Minha coluna e músculos das costas ficaram doloridos e eu não podia suportar o sofrimento quando eu fazia flexões para frente. Era como se alguém estive usando uma marreta em minhas costas.

Então, eu determinei que se eu tivesse que praticar retroflexões, eu deveria fazer flexões para frente também. Desde então, eu mantive um dia para flexões para frente e meus alunos seguiram essa mesma rotina. Neste aprendizado das flexões para frente, minha coluna começou resistindo de tal maneira, que eu senti uma dor insuportável. Similarmente, quando eu sentava para pranayama, a minha coluna encolhia e afundava. Este sofrimento me fez perceber a importância das flexões para frente. Eu entendi com as flexões para frente são tão importantes e essenciais como as retroflexões.

Fonte: Astalada Yogamala, Vol. 1. B.K.S. Iyengar