A Biomecânica do Alongamento e sua Aplicação na Compreensão de Asanas no Método Iyengar

Há alguns anos perguntei ao mestre BKS Iyengar qual era, na visão dele, a chave para atingirmos alto grau em nossa prática. Em resposta ele abriu uma de suas mãos e apontando para as diferentes partes de seus dedos disse:

“Você deve equilibrar todas as energias de cada parte do corpo”

A palavra em sânscrito “Hatha” significa Sol/Lua e implica um equilíbrio Yin/Yang em Yoga. Visto dessa forma a afirmação de BKS Iyengar captura a essência do Hatha Yoga.

Entender os processos biomecânicos e interações é uma chave para equilibrar as forças e energias no corpo. A biomecânica do corpo está sob o comando da mente consciente. O cérebro controla os músculos esqueléticos que movem os ossos e ligamentos avisando os músculos para contrair ou relaxar nos ásanas.

Cada ligamento é rodeado de músculos que se contraem ou relaxam de acordo com o movimento que é produzido. Os agonistas agem para fazer determinado movimento; os sinergistas ajudam esse movimento e os antagonistas se opõem a esse movimento. Trabalhando em concerto todos ajudam a equilibrar as várias partes do corpo.

Mobilidade Dos ligamentos e Estabilidade – A biomecânica Yin/Yang

O movimento e estabilização dos ligamentos agem de forma Yin/Yang. Quanto maior a mobilidade menor a estabilidade e vice versa. A biomecânica musculoesquelética descreve esse processo. Três fatores determinam o movimento em um determinado ligamento;

  1. O formato do osso
  2. As estruturas capsuloligamentares
  3. O músculo que estão no entorno do ligamento

O formato dos ossos contribui para determinar o quanto de movimento se permite em determinado ligamento. Um ligamento com uma bola de osso profunda e um soquete, como no quadril, tem um movimento limitado nos três planos e estabilidade para suportar o peso do corpo. Já a bola da articulação do ombro e seu osso permitem maior mobilidade e menos estabilidade.

A cápsula e os ligamentos ao redor da articulação são conhecidos como estruturas de cápsula de ligamentos. A cápsula da articulação e ligamentos são feitos de tecidos conectivos fibrosos. Essas estruturas de cápsula ligamentar ajustam os ossos uns nos outros e contribuem para determinar o movimento e estabilidade da articulação.

Elas funcionam como extensões móveis dos ossos na articulação. Assim como os ossos as formas dessas cápsulas ligamentar determinam a sua função. Ossos que formam articulações estáveis como a sacroilíaca são mantidos juntos por ligamentos grossos e permitem apenas poucos movimentos. Em contrapartida os ossos que formam o ombro são conectados por ligamentos muito mais finos e maleáveis dando bastante mobilidade.

Finalmente existem músculos que circundam o ligamento, os estabilizadores. Contraindo-se esses músculos produz-se movimento e também se estabiliza as articulações. A forma contraída do músculo afeta a mobilidade da articulação. Músculos tensos limitam a mobilidade dos ossos e relaxados aumentam a mesma. Alongamentos aumentam a estabilidade de determinados músculos estabilizadores e permitem um movimento maior dessa articulação. A prática do yoga alonga os músculos ao redor das múltiplas articulações e aumenta o poder de movimentação do corpo como um todo.

Limitações na habilidade de fazer determinado ásana pode ser resultado de qualquer um dos fatores determinantes de estabilidade e movimentação articular: estado contraído do músculo, o alongamento ou tensão da cápsula de ligamentos e a forma do osso, ou a combinação de todas essas anteriores.

O formato do osso é permanente e não pode ser mudado quando são fechados os platôs de crescimento na adolescência. Sabendo que as formas de osso variam de pessoa para pessoa fica difícil de dizer se uma forma particular de osso de uma pessoa é o fator limitante na postura. O estado da cápsula ligamentar também pode interferir nessa limitação ou habilidade para posturas. Além do mais ligamento tem uma capacidade limitada de alongamento sem se romper, o que cria instabilidade na articulação.

Já que a forma dos ossos não será mudada e o comprimento dos ligamentos não deve mudar muito nos resta trabalhar com os estabilizadores musculares. Isso é uma boa coisa e simplifica as coisas pois a intenção de alongamento de nossos músculos está sob a nossa influência de consciência e pode ser afetada de forma segura através da prática de Iyengar Yoga para melhorar nossas amplitude de movimentos do corpo.

O que é o alongamento?

Todos os nossos músculos tem uma origem numa parte do esqueleto e uma inserção em outra parte do esqueleto. Alongar um músculo basicamente significa mover a origem do mesmo e sua inserção o mais longe uma da outra. Músculos podem ser alongados fixando-se a origem do esqueleto num local e movendo a inserção ou vice versa (ou uma combinação). Muitas estruturas são afetadas quando um músculo alonga-se incluindo os tecidos conectivos que envolvem o músculo e os elementos contráteis que causam essa contração neles. Tecidos conectivos alongam-se através do tempo com um trabalho consciente. Os elementos contráteis (chamados de myomeres) estão sob o controle do sistema nervoso central.

Exemplo em Uttanasana: Os isquiotibiais podem ter duas ações:

  1. de ter sua origem sugada para trás da pelve e ficar longe de sua inserção na perna;
  2. o quadríceps alongando-se irá levar os ísquios tibiais para longe de sua origem. Ambas as ações vão alongar de forma ótima o posterior da coxa.

Movimentando origens e inserções:

Em Janu Sirsasana:

  1. Flexionando o joelho da perna estendida se solta à origem dos gastrocnêmios e isso leva a sua inserção no calcanhar a se mover livremente;
  2. Com as panturrilhas relaxadas flexione os cotovelos para trazer o pé para trás e segure-o. Isso fixa a inserção do mesmo num ponto mais longe do que a origem no fêmur e isso exemplifica conectar a parte superior e inferior para aprofundar-se na postura;
  3. As mãos agora continuam agarrando o pé enquanto o bíceps permanece ativo, flexionando o cotovelo e segurando o pé em dorsiflexão. O quadríceps irá estender o joelho e essa ação levará a origem da panturrilha (gastrocnêmio) atrás do joelho ir para longe da inserção no calcanhar alongando o músculo;
  4. Flexionando o joelho solte a inserção dos isquiotibiais na parte de baixo da perna. Essa ação move a origem dos isquiotibiais na parte de trás da pelve para longe da inserção deles na tíbia.

Texto retirado do livro: The Key Poses of Yoga de Ray Long Tradução inicial de: Autor deconhecido Revisão da tradução de: Roberta Maran e Jonathan Batista